quinta-feira, 17 de junho de 2010

A caminho da simplicidade voluntária (parte II)


Serge Mongeau

A simplicidade voluntária
A expressão "simplicidade voluntária" foi popularizada nos Estados Unidos por Duane Elgin no seu livro publicado em 1981 Volontary Simplicity; Elgin atribuia a paternidade do conceito a Richard Gregg, um adepto de Gandhi que havia escrito em 1936 um artigo com esse título.

Da minha parte, escrevi uma primeira versão de La simplicité volontaire em 1985, no âmbito de uma colecção de livros sobre saúde; a minha reflexão sobre a saúde tinha-me levado à conclusão que nos países industrializados, a maior parte dos nossos problemas de saúde são derivados do sobre-consumo e que a nossa busca de saúde nos devia levar a um estilo de vida mais sóbrio, claramente contra a corrente. Dizia:

" A simplicidade não é a pobreza, é um despojar que nos deixa mais espaço para o espírito, para a consciência. É um estado de espírito que nos convida a apreciar, a saborear, a procurar a qualidade, é uma renúncia aos artefactos que pesam, incomodam e impedem de ir até ao fim das possibilidades".

Voltei a escrever o meu livro numa reedição aumentada em 1998, desta vez insistindo nos efeitos sociais e ecológicos do nosso consumo excessivo: "Hoje em dia, dou-me conta que a via da simplicidade voluntária não constitui simplesmente o melhor caminho para a saúde, mas é sem dúvida a única esperança para o futuro da humanidade".

A via da simplicidade voluntária abre-se por um caminho pessoal de introspecção: trata-se de cada um descobrir quem é, e identificar as respostas às suas verdadeiras necessidades, e quando falo de necessidades penso para além das necessidades físicas de base, nas necessidades sociais, afectivas e espirituais. O que é que me vai preencher plenamente em todas as minhas dimensões e capacidades?

No nosso mundo de abundância, isto significa que temos de escolher; não ir mais na corrente da moda, da publicidade ou do olhar os outros, mas sim em função das necessidades autênticas. Por definição escolher significa agarrar qualquer coisa e deixar de lado outras coisas. Quando se começa a escolher consome-se menos, e por isso precisamos menos dinheiro para viver.

Podemos então trabalhar menos e com o tempo ganho podemos fazer tudo o resto que é essencial à nossa plenitude: reflectir, falar com os que nos estão próximos, manifestar a nossa compaixão, amarmo-nos, brincar... E também responder por nós proprios às necessidades que pesam mais e mais pelas compras, que nos tornam cada vez mais dependentes. De facto é ai que está a dimensão essencial da simplicidade voluntária: reencontrar o tempo, que dá asas à consciência.

Agarrar tempo para viver é agarrar tempo para pensar, é parar o tempo, é aproveitar o momento presente. Quando se vive a correr, no stress, não se sente o tempo a passar, deixamo-nos arrastar, deixamo-nos levar pelas circunstâncias e pela vontade dos outros. Reencontrar o tempo é tomar posse da nossa vida, o que permite libertar-se verdadeiramente, ir para além da informação superficial, contra a corrente, se necessário. Moldar a sua vida, vivê-la como se quer. Empenhar-se também. É minha convicção profunda que quando se reflecte, quando nos informamos e que abrimos os olhos, não se pode mais aceitar o que se passa no mundo e tenta-se muda-lo.

A simplicidade voluntária dá-nos pano para mangas, no nosso mundo baseado no consumismo, é uma recusa ao consumo cego, é o caminho para um consumo consciente, responsável, social. É uma recusa do sistema capitalista que está a dar cabo do planeta.

É um caminho difícil hoje em dia, pois vivemos num mundo minado, carregado de armadilhas que procuram explorar-nos para o seu proveito próprio:
- aproveitando-se das nossas capacidades e explorando-nos pelo lucro, no mundo do trabalho da maioria;
- manipulando-nos para que legue-mos o poder nas suas mãos: o mundo politico;
- quando nos prometerem todo o género de benefícios para que compremos os seus produtos ou serviços, com o que enriquecerão os seus bolsos.

A maior parte de nós cai nas armadilhas e perdemos o controle sobre as nossas vidas. A simplicidade voluntária aparece-nos como um instrumento essencial para se libertar. Vão-me dizer: sim, mas é um caminho individual e mesmo egoísta. Individual de certa maneira, mas não individualista, pois a via de saída, mesmo que faça parte de um processo pessoal, conduz muito rapidamente ao colectivo: não conseguimos libertar-nos sozinhos.

Somos seres sociais e não conseguimos remar contra a maré em permanência. Precisamos da aceitação dos outros, é essencialmente o que dá sentido à nossa vida. Para viver aceitavelmente temos necessidade de serviços colectivos adequados: de cidades mais conviviais, transportes públicos acessíveis e eficazes, de todo o género de serviços públicos...

Para a nossa sobrevivência neste planeta, precisamos de empreender acções colectivas significativas. Para mim adoptar a simplicidade voluntária não é retirar-se do mundo, saltar fora do barco para gozar egoisticamente a vida. Sim, existe uma dimensão de busca de prazer na simplicidade voluntária, mas a longo prazo a nossa vida não pode ser projectada separadamente da evolução do mundo. Eu não quero fazer a minha vidinha sozinho e que tudo o resto se derreta aos meus pés: a poluição, o efeito de estufa, a violência... Vêm ter comigo onde quer que eu esteja.

Serge Mongeau Vers la simplicité volontaire
Postado por Ana Loichot em O Decrescimento

1 comentário:

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