terça-feira, 21 de maio de 2013

Alqueva Transgénico



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A multinacional Monsanto (através da sua “academia de estudos” Dekalb) encontra-se a desenvolver em 48 hectares junto a Serpa, um campo de ensaios de variedades de milho. A líder mundial de sementes transgénicas (OGM), referia numa publireportagem neste Diário do Alentejo (19.10) que sendo “certo que o Alqueva está a proporcionar uma mudança nos campos do Alentejo (…) neste sentido, a Dekalb está certa de que a cultura do milho será a mais propícia para iniciar o regadio naquelas terras”. Nessa mesma edição do DA uma reportagem (como tal não paga como a anterior) reiterava a evidência de como “A Agricultura Está a Mudar no Alentejo”, exemplificando com a diversidade de culturas que são atraídas para lá do olival intensivo (ou os outrora campos cerealíferos), e que vão desde a papoila para a indústria farmacêutica aos campos de cebolais….
Em 2012 o cultivo de milho geneticamente modificado alcançou em Portugal 9.278,1 hectares, um aumento de 20% relativamente ao ano anterior (que por sua vez registara um crescimento de 60%). A crescente propagação deste milho transgénico (MON810), presente na sua esmagadora maioria na região do Alentejo (5.796,2 ha) nos últimos 3 anos caiu no maior dos silêncios, esmorecida a discussão levantada pelas acções directas anti-OGM em 2007 em Silves. A consolidação de um sistema agro-industrial subjugado às grandes multinacionais (Monsanto, Pioneer, Syngenta…) que monopolizam a venda das sementes transgénicas e dos agro-tóxicos, tem sido legitimada pela agricultura portuguesa. E o campo de ensaios de Serpa é somente mais um passo em frente na estratégia da Monsanto, não meramente para a conquista do mercado possibilitado pelo Alqueva, mas sobretudo para tornar Portugal a sua rampa de legitimização e disseminação em espaço europeu das variedades de milho transgénico, à semelhança do que já iniciara em outros campos experimentais no Alentejo e Ribatejo. Uma escolha óbvia pois o Alentejo é o melhor dos cenários para multinacionais agro-industriais dependentes do sistema por excelência da agricultura latifundiária.
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Urge relançar e promover a informação e o debate sobre a questão dos OGM, dos seus impactos ambientais, sociais, económicos e no bem-estar dos consumidores, o que significa colocar no topo da agenda do Alqueva e do Alentejo, dois conceitos que convergem entre si: biodiversidade e soberania alimentar.
Uma das consequências mais comprovadas da marcha da Monsanto é a irreversível contaminação genética dos ecossistemas pelos OGM, sendo que a presença desse código genético implica o pagamento das patentes desses genes cobrado pelas companhias. Está para votação no Parlamento Europeu a Nova Lei das Patentes ou Patente Unitária Europeia acerca dos direitos dos agricultores sobre as sementes e animais reprodutores. A sua aprovação significa simplesmente a criminalização dos agricultores que guardem as suas próprias sementes, consideradas propriedade intelectual na forma de material genético patenteado, chegando ao ponto de poderem-se apreender colheitas quando contaminadas por genes patenteados. Mas a maior das facturas advêm da deliberada diminuição da agrobiodiversidade (cerca de 75% no último século), consequência que os transgénicos apenas aceleram, e que nasceu da perspectiva cega da produtividade industrial da agricultura, exemplificada que foi pelas monoculturas de cereais ou recentemente pelos olivais intensivos.
O contra-argumento a esta crítica surge de imediato acenando às necessidades alimentares mundiais, mas o que acontece é que a falta e o excesso de comida estão par a par na desequilibrada produção e distribuição dos nossos recursos. O tal mundo da globalização económica que determina a produção em larga escala de um número reduzido de espécies agrícolas de elevado valor acrescentado (cash-crops como a soja, o milho, a colza e o trigo), em detrimento de centenas de espécies e milhares de variedades de plantas tradicionais, na base da sustentabilidades das populações locais agora subjugadas aos indicies de exportações das monoculturas.
Urge por isso reclamar a nossa soberania alimentar: “a liberdade e capacidade de cada pessoa e cada comunidade de exercer os seus direitos económicos, sociais, culturais e políticos relativos à produção da sua alimentação”. Pelo que lutar pela alimentação é indissociável de reconhecer o direito às sementes. Precisamente o oposto do que a Monsanto e a agro-indústria nos cobra como progresso e desenvolvimento.
Filipe Nunes
Crónica de opinião, publicada hoje (14.12) no Diário do Alentejo
P.S.: Nesta mesma semana  foi aprovada no Parlamento Europeu a Nova Lei das Patentes ou Patente Unitária Europeia.
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Saber mais em:
PROJECTO 270 (Soberania Alimentar)
Ver:
“O Mundo segundo a Monsanto”. A história da principal fabricante de organismos geneticamente modificados (OGM). Realizado por Marie-Monique Robin, o documentário destaca os perigos do crescimento exponencial das plantações de transgênicos, que, em 2007, cobriam 100 milhões de hectares, com propriedades genéticas patenteadas em 90% pela Monsanto. A pesquisa durou três anos e a levou aos Estados Unidos e a países como Brasil, Índia, Paraguai e México, comparando as virtudes proclamadas dos OGM com a realidade de camponeses mergulhados pelas dívidas com a multinacional, de moradores das imediações das plantações pessoas que sofrem com problemas de saúde ou de variedades originais de grãos ameaçadas pelas espécies transgênicas.

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