terça-feira, 3 de junho de 2014

Que tempo?

Este é um tempo em que a esperança deixou de fazer parte da vida dos portugueses e dos cidadãos deste velho continente.


Este é um tempo em que tudo é incerto e ademais se cultiva o incerto, fazendo da incerteza o modo de vida.

Não basta ao ser humano a incerteza sobre o seu próprio fim; a civilização junta agora todas as incertezas: emprego, reforma, família, país e futuro.
A incerteza deixa os cidadãos à mercê dos donos do mundo, que decidem o destino da indústria, do comércio, da agricultura e dos serviços.

Outra das certezas é fazer crer que os debaixo viveram muito acima das suas possibilidades. E esta certeza ganha muitos dos que viveram mal, porque os debaixo gostam do modo como vivem os de cima e aceitam esta infâmia propagada por aqueles que em poucas semanas gastam o que eles não gastam na vida inteira.

Este é um tempo em que os governantes se moldam a estes parâmetros criando um espaço bloqueado criando a sensação de que não se pode sair porque forças exteriores omnipotentes o não permitem.

É um tempo que, para além do bloqueamento do espaço político partidário se fecha também o espaço da comunicação social, comunicando estes dois mundos entre si virtualmente, à margem da maioria dos cidadãos, que lhes viram as costas, às vezes com raiva.
 
Este é um tempo de exaltação individual para uns milhares de indivíduos determinarem o futuro de todos os outros milhões e milhões, fazendo destes gente sem esperança para construir o futuro de outro modo.
Nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, 66% dos portugueses renunciaram a utilizar uma arma que tinham à mão porque já não acreditam que as coisas mudem.

Os cidadãos respiram a podridão dos governantes que se governam a si próprios, aos seus, e ao grupo que os apoia.

Respiram escândalos, corrupção, compadrio, enriquecimento fácil, exaltação dos ricos, e, em contraste, vêem a sua vida empobrecer. Como uma prenda.

Respiram a impunidade de quem manda nos que governam e, em contraste, vêem o Estado cair-lhes no lombo com toda a força da máquina estatal impiedosa.

Respiram reformas que não param de se reformar e que são contra-reformas.


Respiram a mentira, a falta de honradez, a mesquinhez e a pobreza de espírito que vai do Relvas ao Coelho passando pelo Paulinho das feiras, o senhor de Boliqueime e os que no PS querem esta santa aliança.

Dizem coisas com ares de gravidade; só que nem reparam que já ninguém acredita neles.

O povo virou-lhes as costas. Àqueles que governaram, àqueles que não são capazes de propor uma saída, e ficam contentes por terem mais uns pós no seu mealheiro ideológico e do pequeno poder que o sistema oferece.

Este é um tempo terrível no que se refere à palavra mágica que dá força às mulheres e aos homens, mesmo nos momentos mais negros, a palavra esperança.

Mesmo que a esperança não abunde face à seca no reino das vontades individuais e coletivas, a verdade é que enquanto existirem mulheres e homens bons, generosos, honrados, solidários, igualitários, a esperança não pode morrer.

Neste tempo de miséria intelectual onde se exalta o mal como sendo um bem, é preciso não desistir e roubar, como Prometeu a Zeus, a esperança a quem a confiscou e com ela incendiar os corações. Em Portugal e na Europa.



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