sábado, 19 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

IX


Tenho lá fora um remo.
É o que me resta do mar
mais uma grande vontade
de o afogar.
Alexandre O’Neill

Não sei se ainda hoje, tão longe já no tempo e tendo visto já tantos barcos rasgando as ondas, poderei explicar a sensação atordoante, a electricidade que percorria no meu corpo e por todos os outros que me rodeavam. Pernas, braços, troncos apertavam-se uns contra os outros, pisavam-se pés incógnitos e não se sentia dor, os peitos eram amarfanhados por explosões de sentimentos, gritos, choros, falta de ar. Chamavam-se nomes de homens, clamava-se a Deus pelas boas graças do regresso a salvo de pais, filhos, avôs, todos os aventureiros das causas de um homem e de uma família que não se conheciam senão pelos seus nomes e números, não sabendo sequer se de facto existiam. As caras e tudo o que as definiam eram paisagens maiores que todos os oceânos, terras de esperança, de amor e alegria, de tristeza e dor pelos que morreram no mar, pelos que retornaram estropiados, doentes, vivos e barbudos, apertavam-se mãos, lançavam-se flores, cantava-se, beijava-se, chorava-se, abraçavam-se desconhecidos.
Nunca vi tanta gente junta, creio que nem mesmo nos dias de aniversário da família real, quando surgiam para serem parabenizados, se aglutinavam tantas pessoas num só sítio como naquele dia da chegada das naus. De início deixei-me levar pela corrente de corpos até ao porto, sem qualquer controlo do meu próprio corpo, sem qualquer vontade, senão uma força de pura curiosidade alheia que aos poucos e poucos foi tomando conta da minha pessoal curiosidade de ver homens que, embora muito mais velhos que eu, nasciam agora para mim, nascido que estava há seis ou sete anos. Não eram homens da mesma terra que eu pisava, mas homens marinhos, aquosos, ondinos, homens de algas e sal, ondas e marés, remoinhos, tempestades secas e violentas, homens de cordas duras e tábuas rangentes, com os ouvidos toldados pelas vozes das sereias que me contavam que existiam para lá da vista quando esta se arredonda − sei-o agora que se arredonda e que não cai em degraus ou em queda livre porque eles estavam aqui para dizer que com a recta se faz a circum-navegação. Por essa razão necessitava de os ver mais de perto, tão perto quanto possível, sentir-lhes o cheiro das suas peles para saber se eram ou não diferentes de mim, se não seriam antes tritões de duras escamas cobertas de limos, ou monstros como aquele que Maldoror encontrou uma vez à beira-mar sentado sobre uma rocha com cada parte do seu corpo substituída por um qualquer animal marinho, cabeça de alforreca, nádegas de caranguejo; seriam os seus hálitos de salsugem ou do comum cheiro nauseante de vinho azedo e pão bolorento? Eu precisava de tocar naqueles farrapos de pano e gente, precisava de me comparar com aqueles homens.
Meti-me assim por dentro do labirinto de pernas na minha própria viagem ou circum-navegação num oceâno de membros, ondas de movimento, imóveis rochas, remoinhos de emoções, reverberações de ânimos em grutas, um projecto de uma impossibilidade maior que o proposto por Magalhães, esse de dar a volta completa aos oceânos e terras. Aqui, muito mais do que em qualquer mar traiçoeiro, se me opunham marés contrárias, puxões de ventos de troncos de carne que me enfunavam os meus trapos e me faziam arrepiar caminho e me perdiam do meu destino. Labirinto móvel, labirinto vivo animado de excesso de emoções, de gritaria, de choros, e eu sem fio de Ariana, correndo, chocando, pulando, minotauro de mim próprio, perseguia o meu desejo de chegar ao fim para alimentar esse desejo, essa incógnita de homens, torná-los reais mais do que a história que se faziam deles pela saudade.
A pouco e pouco o labirinto foi-se desfazendo até que me vi sozinho frente a frente com as naus vazias, velhas ruínas silenciosas que apenas teriam honras de conforto, de carinho e carícias dias mais tarde quando carpinteiros, marceneiros e calafeteiros acabassem as celebrações de retorno dos seus outros filhos pródigos. A estes filhos que ficavam abandonados nas docas ninguém lhes passava a mão pelo dorso, ninguém encostava o ouvido procurando escutar os seus vagidos de tristeza orfã. Por simpatia, ou por me ver igualmente abandonado pelos meus amigos, deixei-me ficar e sentei-me nas tábuas húmidas do porto mirando aqueles colossos balouçantes. O que vai ser de vocês agora, agora que estão sozinhas?, perguntava reparando em cada tábua carcomida pelo sal, pelas algas e pela força da água. Despertava em mim uma vontade de inspeccionar os seus interiores, de vasculhar os seus segredos e sombras, esperançado por descobrir o que fica sempre escondido, mas o meu medo era maior do que aquelas embarcações e tinha fendas por onde a coragem se escapava bem mais fundas e abismais do que aquelas madeiras pisadas tantas vezes ao longo de anos no alto mar.
“Se vieste para morrer não procures mais.”
Assustado por um som diferente do do chocalhar das ondinhas nas tábuas e do da minha voz, por pouco não caía ao mar, não tivesse aquela estranha voz me prendido o ombro com uma mão calosa de tanta ternura.
“Gostarias de lá entrar?”
“...”
“Gostarias de lá entrar, perguntei-te se gostarias de lá entrar. A nau comeu-te a língua miúdo?”
“Na...não senhor, nem nau nem gato mas susto senhor. Nem minha mãe me deixaria entrar e respeito muito a minha mãe para não entrar onde minha mãe não quer que entre, senhor.”
“Fazes bem em respeitar tua mãe, mas não estando ela aqui presente o que te impede de penetrar na nau?”
“Ninguém senhor mas também o senhor, senhor, pois estando aqui o senhor quem me diz que o senhor não me entrega às autoridades depois de entrar, senhor?”
“Fazes bem em desconfiar, embora para um miúdo da tua idade é muito estranho tanta falta de confiança ou falta de saber o que não se sabe. Senão fosse essa vontade de saber não nos teríamos lançado à água. Fazes bem, fazes muito bem. Tivesse eu tido esse teu medo antes...”
“Porquê senhor?”
“Morres.”
“Desculpe senhor?”
“Morres, disse eu, morres se lá entrares, morre qualquer coisa. Eu próprio morri.”
“Mas como senhor se aqui está falando comigo, senhor?”
“Tens razão, estou aqui não estou? Finalmente estou aqui, finalmente estou em casa.” e riu-se e ri-me também eu. Depois passou com a sua mão pelo meu cabelo e partiu para a praia com um saco de pele alçada sobre o ombro. Levantei-me e fiquei-me a ver o homem descendo o molhe e as rochas naquele passo pesado que a areia obriga. Até que o homem se voltou para trás e gritou.
“Se eu fosse a ti não ficava aí muito mais tempo, não tarda com a lua já no alto como está chegam ladrõezecos piores que tu e eles não precisam de entrar nos barcos para matar. Vai para casa miúdo.”
Segui o conselho do marinheiro e não fiquei à espera de os ver chegar. Corri e corri sem olhar para trás, sem mesmo me despedir das naus e do marinheiro e quando cheguei a casa já minha mãe se encontrava à porta pronta para sair em minha busca. Claro que não lhe disse por onde andei, disse-lhe apenas que me ocupei a brincar com os meus amigos lá no alto dos montes nos campos e como a nossa guerra não acabava, porque se atrasou pois ninguém queria fazer de pagão e nos divertíamos tanto que nem reparámos que o sol se tinha posto e a lua iluminava. Minha mãe foi perdendo a preocupação e entre abraços e beijos conduziu-me para a mesa na taberna onde sempre eu comera as minhas refeições. A algazarra, como seria de esperar depois da chegada dos homens do mar, era maior do que as outras vezes, mas minha mãe nem se perguntava porquê, ainda toldada pela preocupação de ter perdido o seu único filho. A festa já ia longa quando comecei a comer, por isso, quando terminei a minha malga de sopa, já minha mãe, tia e ajudante se preocupavam com as limpezas. Foi então que se levantou um vento que fez estremecer a porta até a soltar do trinco. Como as minhas mulheres ainda se ocupavam com as arrumações, saltei do banco para o chão e corri para fechar a porta. Fazia muito escuro lá fora e quando abri a porta para ver se alguém e não o vento a tinha entreaberto, não parecia que alguém habitasse a noite, até que um pé e uma mão se fizeram iluminar pela fraca força das velas. De susto saltei para trás e um homem convidou-se a entrar. Lá dentro minha mãe fez saber que já estávamos encerrados, pois tinha muito bons ouvidos e a porta rangia sempre que empurrada, mas como não ouvira resposta nem de voz nem da porta a ser trancada, toda eléctrica entra de rompante na taberna e dá de caras comigo sentado no chão a olhar para um homem que se encontrava a olhar para mim.

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