quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Amor Descartável


14732421: Mas alguém morre de Amor hoje?
11161060: Compreendo a tua questão à luz da actual filosofia. Numa época em que se troca de amante como quem troca de blusa, como se pode morrer de Amor?

Por um lado, morre-se por qualquer razão hoje em dia. Por que não por Amor?

Por outro lado, acredito ser triste consequência de uma sociedade de rápido consumo, uma visão funcional do Amor. “Se não me serve mais, que vá para a reciclagem. Venha o próximo modelo”. Este torna-se o nosso principal padrão de interacção com o mundo, e logo, com o outro.

Todos os produtos se encontram numa estante ou montra ao alcance da mão. Para quê agarrar-nos a um velho e desgastado modelo de telemóvel ou amante, se é tão fácil mudar de, recomeçar numa folha em branco.

Todo o produto é temporário, e visa a satisfação das necessidades pessoais. Nesta equação simplista, basta pôr a palavra “Amor” sobre a palavra “Produto”.

Esta Sociedade do Consumo, é igualmente, e há bem mais tempo, uma Sociedade do Trabalho.

O Trabalho, que ainda há 20 anos atrás, era uma posto a ocupar para o resto da vida, é agora um barco em constante naufrágio, no qual “saltar para fora” se tornou uma Questão de Sobrevivência.

Antes, parecia normal comprar casa, fundar família. Era desejável que o Amor durasse, tal como o Trabalho e a Casa.

Agora, Trabalho Precário, Vida Precária, Amor Precário.

Quase ninguém pode comprar uma casa. Mesmo que tenha acesso a um crédito, quem poderá dizer com segurança que estará a trabalhar no próximo ano? Quem poderá dizer que não terá de emigrar para o outro lado do Mundo?

O cidadão adaptado terá que viver um Amor adaptado. Logo, Descartável.
Se Rejeitar adaptar-se, terá de prescindir do Amor, em sua versão Romântica, adoptando o Celibato Emocional, ou arriscar-se à Insanidade Mental/Morte, preço lógico da sua inadaptação

14732421: Acreditas então que se pode morrer de Amor?
11161060: Todos os dias, de Amor e tantas outras coisas. Mas nem tudo é mau, nem tudo é desespero.

Verdade que, por mais vezes do que seria desejável, morre-se de Amor, por abuso de drogas, suicídio na estrada, comportamento auto-destrutivo multivariado.

Outros morrem apenas para a Sociedade. Desaparecem na insanidade mental, em hospícios, ou como eremitas, numa paisagem remota, longe da vista do Amor.

Existe ainda uma terceira categoria de desesperados românticos, de inadaptados amantes, que morre apenas dentro de si, intimamente, psicologicamente. Perdem-se infindas vezes no deserto do desespero.

No entanto, por inacreditável magia ou ancestral vitalidade, seus corpos sobrevivem ao naufrágio da alma, e ganham nova vida à luz do Sol.

Renascem, pouco a pouco, Filhos da sua própria Dor.
Um penoso processo de Renovação Psíquica. Renascem para voltar a Amar, arriscando perder tudo, novamente.

Torna-se assim claro, que Amar com total entrega é um luxo para poucos.

Mas o que é uma Vida sem Amar assim?

2 comentários:

  1. relativizas a palavra amor até à banalização quase total da emoção. a vivência humana do amor não pode e não deve ser comparada com circunstâncias acidentais e descartáveis.

    n

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  2. n, obrigado pelo teu tempo, embora eu esperasse mais uma critica à estrutura do texto. num pequeno ensaio, relativizar é um direito, até porque detesto a escola da verdade absoluta de Sócrates.

    quanto à banalização, todas as pessoas que conheço me afirmam que já amaram várias vezes, o que torna o fenómeno banal, mas não menos interessante.

    a relativização é igualmente resultado da minha actual fase emocional. fiquei, no entanto, sem perceber se discordas da opinião pois não acreditas que a actual sociedade vive assim, ou porque defendes uma idealização do amor romântico a toda a prova.

    mais uma vez, obrigado pela tua opinião

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