sábado, 2 de novembro de 2013

A Contra-Revolução de 19-26 de Outubro de 2013


Acabaram as cançõesA revolução de 19-26 não se consolidou, nem com banda sonora (a música está proibida), nem com a versão 2.0 (a tecnologia suspensa), nem com aconfluência dos rios (que secaram). Nas ruas, sobra o desânimo. Sindicatos, movimentos sociais, os mais diversificados grupos políticos, passaram à clandestinidade. Não é provável que de lá saiam em massa antes da efeméride do próximo 25 de Abril, curiosamente no seu 40º aniversário. Antes disso apenas a desmoralização, mais ou menos organizada, o preço vil dos erros, dos pecados e da capitulação, ainda que em alguns casos, involuntária. Na Assembleia da República já não resta ninguém à esquerda e da varanda já nada se exibe com estufo, fulgor, timbre ou veleidade. A direita, recuperada sem sequer ter que accionar a brigada Macedo ou radicalizar por via peticionária, assistiu na arquibancada ao descalabro esquerdista, e retomou o poder com grande facilidade. Os insubmissos desertaram ou estão dentro de quatro paredes a discutir os avanços e recuos de revoluções longínquas.  Os poucos que não recuam e permanecem fiéis ao projecto emancipatório são manifestamente incapazes de levar o PREC avante sozinhos. A reforma agrária cessa e os campos, antes produtivos, regressam aos caçadores de coutadas e às urtigas. O Labrincha, que contra todo o cepticismo se manteve inconformista, foi apesar de tudo para o exílio. Tenta o Equador, fracassada a Guatemala, mas também não consegue. Safa-se no Canadá com a ajuda do Aleixo, que à última da hora soube escolher o lado certo da força. A Catarina foi cooptada pelo Ministério para a Igualdade de Género e convenceu o que restava do Bloco de que nada está perdido. Constituem-se milícias contra os piropeiros. O Galamba junta-se, já com o pénis metido na albarda, e o Garcia, com a sua turba, participa na revolução a partir das Águas Livres ou de Damasco. Os autonomistas tomaram um casebre para lá de Montesinho e são entretanto legalizados. Por lá permanecem, porém reféns só de si próprios. Lá fora, o que se passa, não interessa. Fizeram “o socialismo” só para eles mas diga-se em abono, fizeram-no em nome dos outros. A CGTP foi integrada no Ministério do Trabalho e, meia volta, é chamada a fazer uma perninha na Junta Autónoma das Estradas, evidentemente restaurada. Sócrates é o escolhido para liderar o período de transição democrática, ladeado pelo Soares dos Santos, no neo-COPCON (Comando Operacional dos Contra-Revolucionários). A ordem volta e com ela o BPN, que salda a dívida financiando as reformas. Rapidamente se encontra uma parte qualquer do povo que aplaude. Dizem as más línguas que foi recrutado em Oeiras, na Lapa e em Santa Comba. Os insurrectos que não se rendem são fuzilados às portas de Belém, com o Cavaco, reposto, a ser o homem escolhido para carrasco. Tudo jaz. Os mercados recuperam a confiança e os investidores perdem o medo. A instabilidade limita-se ao Benfica. Os bêbados andam sóbrios e os sonhadores acordados. Reina a obediência e até o BE começou de novo. Da revolução de 19-26 já só sobram as memórias, compiladas, na clandestinidade, pelo 5jours.net, alojado, por tradição, em França e na Argélia. Nada funciona a não ser as instituições e a polícia. As prisões rebentam pelas costuras com os revoltosos que foram incapazes de escapar às garras do velho Estado. O santuário de Fátima muda-se para São Bento, uma vez que até nome de santo tinha, e os feriados religiosos são reinstaurados. No novo regime não há parlamento. Governa-se a partir da maçonaria, que volta a reunir os conselhos de administração mais poderosos. O amor livre é proibido, tal como o isqueiro. Na rua, saias, só abaixo do joelho. Nas casas, fumar, nem mesmo às escondidas. Cão, só se for Zico. E gatos, só se for para tratar dos ratos que teimam em roubar a lavoura. As toupeiras, por medo de contágio, são  exterminadas. O sexo conjugal é limitado e qualquer abuso severamente castigado. O Social, do Estado, é enterrado, e todo o dinheiro dos contribuintes vai por inteiro para que os empreendedores treinem o jeito no mercado livre. Os hospitais públicos entregues à Santa Casa, entretanto elevada a Ministério da Caridadezinha. O Banco Alimentar contra Fome lá se dissolve e ambos promovem a boda entre a Jonet e o Santana. Na ceia, claro, comem-se bifes. O ambiente é de tal modo propício que até o Carrilho e a Bárbara se entendem. A Economia legaliza a usura. Os agiotas são credenciados. O FMI abre balcões no Chiado e no Rossio os credores vêem erguer uma estátua em sua homenagem. O Henrique Raposo ressuscita e como chefe de qualquer merda afecta ao partido do governo, propõe e aprova o rebaptismo da Ponte 25 de Abril para Ponte Arménio Carlos. A Pimentel aplaude. Os saudosistas, resignados, também se juntam. De Loures regressa o Bernardino, sob nova chuva de aplausos. Em Peniche, os revoltosos reorganizam-se, olhando ao longe as ondas de Mcnamara e os calcanhares luxuriantes das nazarenas. Lembram, nostálgicos, o tempo em que se atiravam ovos à cara do Barroso. Até o tipo que outrora gritava, confiante e eufórico, apenas escreve, sem réstia de alento, num lençol velho de um Palácio:  “… ACABARAM AS CANÇÕES.”
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